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segunda-feira, 17 de março de 2014

Sanando uma dúvida de meus LEITORES e colaboradores.........


    SEXTA-FEIRA, 21 DE OUTUBRO DE 2011
    A evolução natural das línguas derivadas do latim, incluindo o 'mineirês'
    Todos sabemos que o português é uma língua derivada do latim. Da mesma forma, o são o espanhol, o italiano, o francês, o romeno. Menos divulgadas no Brasil, mas igualmente línguas derivadas do latim são o sardo, o catalão, o galego, o provençal (ou occitano), o vêneto (da região de Veneza), e tantas outras. Por que menos divulgadas? Porque, embora línguas na real acepção da palavra, não estão relacionadas a nações, a países. Dessa forma, nossa cultura, que preserva o ‘sentimento nacionalista’ disseminado na Europa no sec. XIX, tem dificuldade em falar de língua sem que essa seja associada a uma nação.
                    
    Não quero falar de nação nesse artigo porque não é o meu escopo, mas, bem rapidamente, quero ressaltar que o conceito de nação é imaginado (sugiro que leiam “Comunidades Imaginadas” de Benedict Anderson). Decisões políticas definem territórios que passam a ter um governo comum a todos dentro daquele território e só existem porque os outros territórios igualmente constituídos o reconhecem e são reconhecidos como tal. Nação nada tem a ver com identidade, isto é, brasileiro só é brasileiro porque nasceu dentro de um território que é reconhecido por outras nações como Brasil. Não há necessariamente nenhuma identidade que identifique as pessoas que ali nascem.

    Justamente por isso, os governantes tiveram a ideia de associar línguas às nações e “criaram” as línguas nacionais. Assim, os alemães escolheram uma língua germânica para ser o alemão, a língua da nação Alemanha, os portugueses escolheram uma variante para ser a língua portuguesa, os espanhóis escolheram a deles (e no caso da Espanha a coisa pegou porque outros grupos falantes de outras línguas não concordaram muito com isso), os italianos escolheram sua língua, aquela que era falada pelo maior nome da literatura italiana, Dante Alighieri, os franceses escolheram a sua e assim por diante. As colônias e ex-colônias seguiram mesmos passos. Assim, o Brasil adotou a língua portuguesa como sua língua oficial.

    Mas e as outras línguas, existem ou não? Existem sim, e estão vivinhas. Algumas, é claro, com tanta pressão e sem força política, estão muito influenciadas pelas ‘línguas matrizes’. Outras, por razões identitárias, permanecem fortes. É o caso do catalão.

    Depois desse preâmbulo, vamos ao que interessa. Como dissemos, todas as línguas citadas derivam do latim. O latim, por sua vez, também deriva de outra língua, é óbvio. Ou é cabível pensar que o latim nasceu junto com os romanos? A partir desse ponto, creio que todos concordem que as línguas vão sofrendo alterações ao longo do tempo. É importante também frisar que todas as línguas, desde que o mundo é mundo, apresentam variações de todos os tipos. No Brasil costumamos aprender que existem duas variedades, a culta e a popular. Isso é uma inverdade. Primeiro, não existe ‘língua culta’. Existe uma variedade tomada como padrão para ser a língua de comunicação entre os habitantes do mesmo território chamado Brasil. Assim, as leis, por exemplo, são escritas nessa chamada língua padrão para que todos possam entendê-la. A escola ministra aulas supostamente em língua padrão para que os alunos possam todos entender. Mas é preciso ressaltar que ninguém no Brasil sabe qual é a língua padrão. Ela faz parte de um imaginário. Há inúmeras variações mesmo entre os falantes da variante padrão. E, também, não existe UMA língua popular. Existem várias. Ou vocês acham que o falante popular de Minas Gerais, fala a mesma variedade do falante popular do Rio Grande do Norte? E mesmo em MG, estado enorme, há grandes diferenças entre as falas populares do Triângulo Mineiro e da Zona da Mata.

    Bem, qual variedade foi a escolhida para ser a língua padrão das várias nações? A dos ‘populares’? Ou a das classe dominantes? Precisa responder? Bem, seguindo esse raciocínio, é fácil imaginar que o latim divulgado entre os povos dominados não era o das elites. Não era o chamado latim clássico, aquele de Cícero. Era o latim falado pelo povão. E esse, influenciado pelos falares e línguas locais foi tomando a forma do que hoje chamamos de línguas nacionais. Em poucas palavras, o português que estudamos hoje, conhecido e disseminado como ‘culto’, provém de uma língua absolutamente vulgar (de vulgos, povo comum). Uma das provas disso é um documento da idade média, chamado ‘appendix probi’. Nesse documento constam 227 verbetes de uso popular com a devida ‘correção’. Uma das correções era “speculum non speclum” (espelho). O ‘correto’ era speculum, mas o povo falava (porque poucos sabiam escrever) speclum. De uma proparoxítona se saltava para uma paroxítona. É o princípio da economia. Qual o resultado hoje?

    Latim
    Português
    Espanhol
    Catalão
    Italiano
    Speculum
    Espelho
    Espejo
    Espill
    Specchio

    Em nenhuma variedade atual a palavra é proparoxítona. Nesse sentido, podemos dizer que a língua evoluiu a partir da variante popular do latim. O francês teve outras influências e usa o termo ‘mirroir’, muito semelhante ao inglês ‘mirror’.








    Dito isto, podemos demonstrar então que as variedades populares nada mais são do que legítimas variedades da língua e não formas estigmatizadas como erradas. Digo legítimas porque são as que evoluem naturalmente, sem interferências normativas. É bem verdade que são formas não padrão e se queremos viver e progredir no atual sistema de classes em que vivemos, devemos saber sim a variedade padrão. O falante da variedade não padrão, seja ela qual for, deve saber duas coisas importantes: primeiro, sua variedade não é a variedade de pessoas burras. É simplesmente uma variedade como outra qualquer; segundo, é importante conhecer a variedade padrão para que se possa ascender socialmente, pois vivemos num mundo em que o modo de falar e escrever comunica muito mais coisas do que somente a mensagem que se quer transmitir. Vejamos agora mais exemplos de evoluções do latim para outras línguas:



    Latim
    Português
    Espanhol
    Catalão
    Italiano
    Vêneto
    Mineirês
    tegula
    telha
    teja
    taulell
    tegola
    teia
    teia
    vetulus
    velho
    viejo
    vell
    vecchio
    vecio
    veio
    coagulum
    coalho
    cuajo
    quall
    caglio
    caio
    cuaio
    oculo
    olho
    ojo
    ull
    occhio
    ocio
    oio
    allium
    alho
    ajo
    all
    aglio
    aio
    aio
    folium
    folha
    hoja
    full
    foglia
    foia
    foia

    A escolha de palavras proparoxítonas em latim foi proposital, bem como termos que derivaram do som (L) intervocálico para o som (LH) no português (evito terminologia técnica para facilitar o entendimento de todos os leitores). Assim podemos observar as semelhanças nas derivações para outras línguas também. Vejam que à exceção do italiano ‘tegola’, nenhuma outra variante é proparoxítona; da mesma forma que o (L) se tornou (LH) em português, em espanhol ele se tornou (J) (leia-se (RR)); em catalão, a vogal final sumiu e o (L) se transformou em (LL); o italiano mantém diferenças, de acordo com a declinação latina. Aliás, se é que se possa falar de proximidade entre línguas, o italiano é, sob vários aspectos, a língua neolatina mais próxima do latim; a língua vêneta (da região de Veneza e com variantes inclusive no Rio Grande do Sul) tende a acabar com sílaba central e transformá-la em tritongo, exceção a ‘vecio’ e ‘ocio’ (leia-se ‘vétchio’ e ótchio). E o mais curioso, o vêneto, nesses casos é muito próximo do mineirês. A diferença é que o vêneto é uma língua falada regularmente, reconhecida e com literatura escrita, dicionarizada inclusive. O mineirês é tido como forma ‘errada’ de caipira burro que não estudou.

    Faço a ressalva que a variante do vêneto usada para os exemplos é a de Verona. Pode haver pequenas variações em relação ao veneziano, por exemplo, ou ao ‘talian’ do RS, outra variante do vêneto.

    Depois dessa explanação, fica a pergunta: por que o mineirês, ou qualquer outra variedade do português brasileiro, é considerada ‘língua errada’, ou como vi outro dia, ‘língua chula’? São variantes tanto quanto qualquer outra que tenha passado a ter status de língua nacional, ou mesmo não sendo língua nacional, se mantenha viva e reconhecida. Não existem línguas erradas ou certas, línguas ruins ou boas, línguas fáceis ou difíceis. Existem sistemas linguísticos diferentes, às vezes sistemas semelhantes e estruturas diferentes, variantes dentro do mesmo sistema e variedades dentro da mesma estrutura. 
    E só pra terminar o quadro, o latim ‘speculum’ é ‘specio’ em vêneto (leia-se 'spétchio') e ‘ispêio’ em mineirês.

    Um abraço e até a próxima.
    Postado por Mario L. M. Gaio às 17:31 













  • Paulo Leonardo Castilho Pires isto foi uma pessoa q não entendeu o q falei...eis a resposta.....
    2 segs

    Obs: Devido a importância deste texto resolvemos colocar na Integra.... mesmo porque é um material para estudos muy do importante......

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