Para designar a matéria a ser tratada no laboratório, os alquimistas servem-se de uma profunda simbologia e a expressam sob diversas formas. Muito comum, por exemplo, no imaginário alquímico, são as figuras de animais conhecidos ou fabulosos, cujas propriedades e características dizem respeito às diferentes fases e degraus por que passa o alquimista em sua perene busca pela grande transformação. Há uma variedade quase infinita de imagens bestiais distribuídas pelos textos alquímicos clássicos, e vale dizer que seu conjunto guarda a sete chaves as intrincadas verdades que os alquimistas devem decifrar em sua senda pessoal. Impossível tratar aqui de todos os animais que assumem valores alquímicos; falemos, pois, dos principais.
Comecemos pelo coelho, que representa o conhecimento vulgar e profano. Ele é rápido, saltitante e esperto. Sua companhia, os contos de fadas não desmentem, é inconveniente, dado o seu comportamento desorganizado e imaturo. O coelho é o não-iniciado, aquele que fala de si contando vantagens, e que mente bastante por ser oportunista; de cartola na cabeça, chega a apresentar-se como mago ou alquimista, mas, por ser superficial, não passa do embusteiro que dificilmente sabe mesmo do que é que está falando. Visto nas gravuras alquímicas quase sempre entrando em buracos ou cavernas, ele serve, entretanto, para nos indicar a passagem para o ambiente inacessível, para os mundos escondidos. Por ser um animal fraco, seu sacrifício simboliza a morte do caráter infantil em prol do amadurecimento futuro.
O próximo degrau, coagulação, encontra-se bem representado por vários animais, especialmente o lobo. É necessário agora retirar das águas em que se dissolveu parte do ego um extrato a ser trabalhado; isto é, é oportuno que se valorize este ou aquele aspecto, visando passo a passo à transformação completa, exercício para uma vida inteira. O lobo é um animal terrestre e noturno. Por enxergar bem à noite, encarna o protótipo do herói guerreiro que adentra nas cavernas para delas sair mais tarde, revigorado e forte. Hades, por exemplo, veste-se com uma capa de pele de lobo, a fazer dele um animal ctônico, morador do mundo inferior. Agressivo e selvagem, ligado ao elemento terra, o lobo faz sangrar a consciência e engole os corações, vide deus Anúbis da mitologia egípcia, que no tribunal dos mortos devora os corações impuros que não merecem renascer.
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