SEXTA-FEIRA, 21 DE OUTUBRO DE 2011
Todos sabemos que o português é uma língua derivada do
latim. Da mesma forma, o são o espanhol, o italiano, o francês, o romeno. Menos
divulgadas no Brasil, mas igualmente línguas derivadas do latim são o sardo, o
catalão, o galego, o provençal (ou occitano), o vêneto (da região de Veneza), e
tantas outras. Por que menos divulgadas? Porque, embora línguas na real acepção
da palavra, não estão relacionadas a nações, a países. Dessa forma, nossa
cultura, que preserva o ‘sentimento nacionalista’ disseminado na Europa no sec.
XIX, tem dificuldade em falar de língua sem que essa seja associada a uma
nação.
Não quero falar de nação nesse artigo porque não é o meu
escopo, mas, bem rapidamente, quero ressaltar que o conceito de nação é
imaginado (sugiro que leiam “Comunidades Imaginadas” de Benedict Anderson).
Decisões políticas definem territórios que passam a ter um governo comum a
todos dentro daquele território e só existem porque os outros territórios
igualmente constituídos o reconhecem e são reconhecidos como tal. Nação nada
tem a ver com identidade, isto é, brasileiro só é brasileiro porque nasceu
dentro de um território que é reconhecido por outras nações como Brasil. Não há
necessariamente nenhuma identidade que identifique as pessoas que ali nascem.
Justamente por isso, os governantes tiveram a ideia de
associar línguas às nações e “criaram” as línguas nacionais. Assim, os alemães
escolheram uma língua germânica para ser o alemão, a língua da nação Alemanha,
os portugueses escolheram uma variante para ser a língua portuguesa, os
espanhóis escolheram a deles (e no caso da Espanha a coisa pegou porque outros
grupos falantes de outras línguas não concordaram muito com isso), os italianos
escolheram sua língua, aquela que era falada pelo maior nome da literatura
italiana, Dante Alighieri, os franceses escolheram a sua e assim por diante. As
colônias e ex-colônias seguiram mesmos passos. Assim, o Brasil adotou a língua
portuguesa como sua língua oficial.
Mas e as outras línguas, existem ou não? Existem sim, e
estão vivinhas. Algumas, é claro, com tanta pressão e sem força política, estão
muito influenciadas pelas ‘línguas matrizes’. Outras, por razões identitárias,
permanecem fortes. É o caso do catalão.
Depois desse preâmbulo, vamos ao que interessa. Como
dissemos, todas as línguas citadas derivam do latim. O latim, por sua vez,
também deriva de outra língua, é óbvio. Ou é cabível pensar que o latim nasceu
junto com os romanos? A partir desse ponto, creio que todos concordem que as
línguas vão sofrendo alterações ao longo do tempo. É importante também frisar
que todas as línguas, desde que o mundo é mundo, apresentam variações de todos
os tipos. No Brasil costumamos aprender que existem duas variedades, a culta e
a popular. Isso é uma inverdade. Primeiro, não existe ‘língua culta’. Existe
uma variedade tomada como padrão para ser a língua de comunicação entre os
habitantes do mesmo território chamado Brasil. Assim, as leis, por exemplo, são
escritas nessa chamada língua padrão para que todos possam entendê-la. A escola
ministra aulas supostamente em língua padrão para que os alunos possam todos
entender. Mas é preciso ressaltar que ninguém no Brasil sabe qual é a língua
padrão. Ela faz parte de um imaginário. Há inúmeras variações mesmo entre os falantes
da variante padrão. E, também, não existe UMA língua popular. Existem várias.
Ou vocês acham que o falante popular de Minas Gerais, fala a mesma variedade do
falante popular do Rio Grande do Norte? E mesmo em MG, estado enorme, há
grandes diferenças entre as falas populares do Triângulo Mineiro e da Zona da
Mata.
Bem, qual variedade foi a escolhida para ser a língua padrão
das várias nações? A dos ‘populares’? Ou a das classe dominantes? Precisa
responder? Bem, seguindo esse raciocínio, é fácil imaginar que o latim
divulgado entre os povos dominados não era o das elites. Não era o chamado
latim clássico, aquele de Cícero. Era o latim falado pelo povão. E esse,
influenciado pelos falares e línguas locais foi tomando a forma do que hoje
chamamos de línguas nacionais. Em poucas palavras, o português que estudamos
hoje, conhecido e disseminado como ‘culto’, provém de uma língua absolutamente
vulgar (de vulgos, povo comum). Uma das provas disso é um documento da idade
média, chamado ‘appendix probi’. Nesse documento constam 227 verbetes de uso
popular com a devida ‘correção’. Uma das correções era “speculum non speclum”
(espelho). O ‘correto’ era speculum, mas o povo falava (porque poucos sabiam
escrever) speclum. De uma proparoxítona se saltava para uma paroxítona. É o
princípio da economia. Qual o resultado hoje?
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Latim
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Português
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Espanhol
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Catalão
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Italiano
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Speculum
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Espelho
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Espejo
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Espill
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Specchio
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Em nenhuma variedade atual a palavra é proparoxítona. Nesse
sentido, podemos dizer que a língua evoluiu a partir da variante popular
do latim. O francês teve outras influências e usa o termo ‘mirroir’, muito
semelhante ao inglês ‘mirror’.

Dito isto, podemos demonstrar então que as variedades populares nada mais são do que legítimas variedades da língua e não formas estigmatizadas como erradas. Digo legítimas porque são as que evoluem naturalmente, sem interferências normativas. É bem verdade que são formas não padrão e se queremos viver e progredir no atual sistema de classes em que vivemos, devemos saber sim a variedade padrão. O falante da variedade não padrão, seja ela qual for, deve saber duas coisas importantes: primeiro, sua variedade não é a variedade de pessoas burras. É simplesmente uma variedade como outra qualquer; segundo, é importante conhecer a variedade padrão para que se possa ascender socialmente, pois vivemos num mundo em que o modo de falar e escrever comunica muito mais coisas do que somente a mensagem que se quer transmitir. Vejamos agora mais exemplos de evoluções do latim para outras línguas:
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Latim
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Português
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Espanhol
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Catalão
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Italiano
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Vêneto
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Mineirês
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tegula
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telha
|
teja
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taulell
|
tegola
|
teia
|
teia
|
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vetulus
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velho
|
viejo
|
vell
|
vecchio
|
vecio
|
veio
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coagulum
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coalho
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cuajo
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quall
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caglio
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caio
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cuaio
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oculo
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olho
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ojo
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ull
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occhio
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ocio
|
oio
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allium
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alho
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ajo
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all
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aglio
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aio
|
aio
|
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folium
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folha
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hoja
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full
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foglia
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foia
|
foia
|
A escolha de palavras proparoxítonas em latim foi
proposital, bem como termos que derivaram do som (L) intervocálico para o som
(LH) no português (evito terminologia técnica para facilitar o entendimento de
todos os leitores). Assim podemos observar as semelhanças nas derivações para
outras línguas também. Vejam que à exceção do italiano ‘tegola’, nenhuma outra
variante é proparoxítona; da mesma forma que o (L) se tornou (LH) em português,
em espanhol ele se tornou (J) (leia-se (RR)); em catalão, a vogal final sumiu e
o (L) se transformou em (LL); o italiano mantém diferenças, de acordo com a
declinação latina. Aliás, se é que se possa falar de proximidade entre línguas,
o italiano é, sob vários aspectos, a língua neolatina mais próxima do latim; a
língua vêneta (da região de Veneza e com variantes inclusive no Rio Grande do
Sul) tende a acabar com sílaba central e transformá-la em tritongo, exceção a
‘vecio’ e ‘ocio’ (leia-se ‘vétchio’ e ótchio). E o mais curioso, o vêneto,
nesses casos é muito próximo do mineirês. A diferença é que o vêneto é uma
língua falada regularmente, reconhecida e com literatura escrita, dicionarizada
inclusive. O mineirês é tido como forma ‘errada’ de caipira burro que não
estudou.
Faço a ressalva que a variante do vêneto usada para os
exemplos é a de Verona. Pode haver pequenas variações em relação ao veneziano,
por exemplo, ou ao ‘talian’ do RS, outra variante do vêneto.
Depois dessa explanação, fica a pergunta: por que o
mineirês, ou qualquer outra variedade do português brasileiro, é considerada
‘língua errada’, ou como vi outro dia, ‘língua chula’? São variantes tanto
quanto qualquer outra que tenha passado a ter status de língua nacional, ou
mesmo não sendo língua nacional, se mantenha viva e reconhecida. Não existem
línguas erradas ou certas, línguas ruins ou boas, línguas fáceis ou difíceis.
Existem sistemas linguísticos diferentes, às vezes sistemas semelhantes e
estruturas diferentes, variantes dentro do mesmo sistema e variedades dentro da
mesma estrutura.
E só pra terminar o quadro, o latim ‘speculum’ é ‘specio’ em
vêneto (leia-se 'spétchio') e ‘ispêio’ em mineirês.
Um abraço e até a próxima.
Um abraço e até a próxima.

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