SURGE UMA SANTA NEGRA, NUM PAÍS ONDE REINAVA A ESCRAVIDÃO,
E, DE REPENTE, TODOS COMEÇAM A CULTUAR A IMAGEM.
Mas eram os negros, os mamelucos, os indígenas e os mulatos
que estavam com ela. Demorou dez anos para que o pároco da cidade se
interessasse. E temos de perguntar: por que essa história não acabou? Por que
não foi sufocada e, apesar dos ataques que ainda sofre, por que a crença se
espalhou pelo Brasil inteiro? Diante de um mito, é preciso avaliar o contexto
histórico. Ele pega uma amplitude da psique coletiva, portanto, da cultura
daquele momento, e não só daquele local, mas da cultura do país. A partir disso,
passa a ser vivido pelas pessoas como se fosse um ser vivo que respira com
elas. Assim, Aparecida vai se tornando padroeira daquele lugar, padroeira do
Brasil. Ela está dentro de nós e, ao mesmo tempo, é um ser psíquico que
extrapola as nossas mentes, porque senão teria morrido quando acabou aquela
geração que viveu a escravidão. Nós estamos a três séculos disso!
VOCÊ DEFENDE A TESE DE QUE APARECIDA É UMA MANIFESTAÇÃO DO
ARQUÉTIPO DA MADONA NEGRA. COMO FUNCIONA ESSE ARQUÉTIPO QUE SE MANIFESTA TANTO
EM UM PAÍS MESTIÇO, COMO O BRASIL, QUANTO EM PAÍSES DE RAÇA CAUCASIANA?
É assim mesmo, estranho. O impacto que tive na Suíça ao
conhecer a Abadia da Madona Negra de Einsiedeln foi enorme. O local é um centro
de peregrinação que inspira a devoção de católicos e até mesmo de protestantes.
Lá, você mergulha num simbolismo mais profundo que ultrapassa a cor da pele,
aqui no Brasil bastante vinculada à escravidão. Percebe que esse negro é também
a noite de onde emerge tudo o que é criado. Dentro de uma amplificação possível
nessas condições, esse é o negro do útero da terra. As Madonas Negras têm uma
relação muito interessante com Gaia, com a própria Terra, com o próprio
planeta. Essa imagem do feminino parindo tudo. A Madona Negra é uma formulação
da Grande Mãe Terra.
“A nação é como o corpo de um ser e o governo deveria ser a
cabeça, capaz de organizar. no Brasil, no momento, eu vejo uma sepa ração
impressionante”
O QUE AS MADONAS NEGRAS TÊM EM COMUM, ALÉM DA COR?
A Madona Negra traz uma espécie de conteúdo encontrado
inclusive em madonas anteriores ao cristianismo, no sentido da relação com
nossos instintos básicos; portanto, da relação com a sobrevivência, da relação
com a criação, com a fertilidade do planeta e da mulher. E, numa forma mais
ampla, com a criatividade, com a capacidade de inventar, de se criar maneiras
não apenas de sobreviver, mas também de evoluir. Há uma circunstância muito
interessante nos lugares mais pesquisados por mim, como a Polônia, a Suíça, o
México e o Havaí: a crise social de identidade daqueles povos. Nesses momentos
de crise social, se ela não emergiu, emerge. E, quando emerge com essa força
telúrica, ela representa a capacidade do povo de se reorganizar e lutar pela
própria identidade. Há uma crise de identidade ameaçando a constituição do
povo.
, autora de Aparecida do Brasil, a Madona Negra da
Abundância, explica os significados do mito de nossa senhora e conta como ele
está ligado ao sagrado feminino
http://www.krakowtraveltours.com/pt/tours-a-partir-de-cracovia/excursao-a-czestochowa
QUAL ERA A CRISE QUE O BRASIL ATRAVESSAVA QUANDO A SANTA FOI
ENCONTRADA?
A nossa mestiçagem. Há um dado que acho importante: ela não
caiu negra no rio, mas colorida. Era policromada e teria ficado tanto tempo
dentro do rio a ponto de embeber-se de uma mistura de lodo. A Maria Helena
Chartuni (a artista plástica que restaurou a imagem da santa depois que ela foi
roubada e quebrada, em 1978) me disse: “Lucy, os resquícios de cor estavam
dentro de alguns dos fragmentos que me trouxeram.” Antes se imaginava que
alguém a tivesse esculpido negra para significar que era a Nossa Senhora dos
escravos. Aí entra mais uma dose de mistério, porque foi a água do rio que a
deixou negra.
ESTÁ CLARO QUE APARECIDA É UMA METÁFORA DA ALMA NEGRA DO
BRASIL. MAS, ALÉM DISSO, EXISTE O FATO DE QUE ELA EMERGE DAS ÁGUAS, ASSIM COMO
OUTRAS DIVINDADES FEMININAS BRASILEIRAS.
Em Aparecida, o que
me chama a atenção é que ela emerge do rio e, aos poucos, descubro que ela foi
cocriada pelo rio. Aqui já se tem uma condição que surge com a água, a água
criando a imagem de Aparecida como nós a conhecemos. E isso dentro de um rio
que se tornou de grande importância econômica e social para aquela região. Pela
nossa grande abundância de água, temos madonas brasileiras envolvidas com os
rios e com o mar, de norte a sul. A qualidade da interação que nós temos com as
águas é que precisa agora receber uma atenção mais cuidadosa. As águas falam
para a nossa psique, se comunicam conosco no nível subliminar. São poderosas.
Aparecida emerge do rio para nos mostrar que a água não é silenciosa e, como a
nossa psicologia está voltada para esse feminino das águas, ela representa a
maternidade das águas. As águas vivas nos têm e vão nos parindo o tempo
inteiro. Uma das fontes para essa minha compreensão da parição das águas
(parição, não aparição!) é o mito disseminado na Amazônia inteira de que o povo
das águas, como são chamados os indígenas, veio de uma transformação de seres
que habitavam dentro dos rios.
Aparecida representa a divisão que nós temos entre uma
herança materialmente trazida pelos europeus, no sentido de uma civilização
racional e baseada na ordem e no progresso, e uma herança indígena em que a
lógica era outra, a organização era outra. Os povos indígenas acreditam que
tudo no universo tem alma – as pedras, as plantas, os animais, não só as
pessoas – e procuram viver em consonância com esses elementos. O mundo europeu
tinha perdido essa visão animista e adquirido outra, que nós caracterizamos
como cristã e também científica. Não se vê a alma das coisas dentro da ciência.
É essa característica que hoje parece estar como uma espécie
de grande desafio, “me decifra ou eu te devoro”, dentro da nossa personalidade
enquanto povo. Ou seja, nós vamos ter progresso e ordem neste país sacrificando
totalmente o outro lado, o lado que reverencia e respeita a natureza, curte
essa natureza exuberante do País, o lado que gosta da sexualidade, gosta de
festa?
MAS VOCÊ TAMBÉM ANALISA A DIVISÃO ENTRE CABEÇA E CORPO EM UM
CONTEXTO BEM POLÍTICO.
Cabeça enquanto governo, corpo enquanto nação. Realmente, a
nação é como o corpo de um ser e o governo deveria ser a cabeça, capaz de
organizar. Mas no Brasil, no momento, eu vejo uma separação impressionante. A
abundância só vai acontecer quando o corpo e a cabeça estiverem unidos.
CABEÇA E CORPO CONTINUAM SEPARADOS COMO HÁ 300 ANOS?
Sim! Digo que o Imposto de Renda hoje é uma continuação
piorada do quinto que o conde de Assumar veio cobrar aqui. Aliás, é até maior,
não é nem um quinto, é um terço, se não for mais. E a gente não sabe para onde
vai o dinheiro. Então, o corpo e a nação de um lado e o governo e a cabeça de
outro continuam tão afastados quanto no tempo do Brasil Colônia. É preciso
assumir: “Tenho cabeça e corpo, então eu vou me administrar.” No plano da
democracia, não é mais admissível dúvida, nós temos de nos governar. Cada um de
nós. Essa associação provoca dois tipos de comportamento que tento
caracterizar:
1º) “Não confio no governo.”
2º) “Digo que não confio, mas, se puder, quero estar lá e,
quando estiver, esqueço tudo o que ficou lá trás.” As dificuldades que
enfrentamos como povo, como nação, de dar às coisas começo, meio e fim, fazer
projetos e terminá-los são tão grandes que me levam a dizer: “Puxa vida,
Aparecida daqui a pouco vai sofrer outro ataque, vai se despedaçar toda.”
Porque ela está representando o despedaçamento dentro de nós.
VOCÊ TOCOU EM UM PONTO INTERESSANTE: ESSA IMAGEM JÁ FOI
VÍTIMA DE VANDALISMO DUAS VEZES. POR QUÊ?
Muito mais. Só se fala de dois ataques porque foram mais bem
documentados. É a mesma coisa que acontece quando, por exemplo, eu estou
vivendo uma crise, passando uma situação difícil e aí tropeço na rua e torço o
tornozelo, quebro uma perna. Seria um momento para eu parar e refletir um
pouco. Como é que estou andando? Para onde estou indo? Como pessoa, isso é
possível, mas, como povo, precisamos nos educar, falar e discutir muito e
encontrar maneiras comuns de compreensão. Isso, enquanto o corpo de uma nação
precisa de educação, e muita educação. Conhecimento.
DE ACORDO COM O MITÓLOGO NORTE-AMERICANO JOSEPH CAMPBELL, QUE
VOCÊ CITA NO LIVRO, O MITO TEM QUATRO FUNÇÕES: ESPIRITUAL, FILOSÓFICA,
SOCIOLÓGICA E PEDAGÓGICA. QUAIS SERIAM ELAS NO CASO DE APARECIDA?
A função pedagógica do mito diz o seguinte: enquanto você
tiver a cabeça separada do corpo, você não tem fartura na vida. Cabeça
significando capacidade de organização, previsão de recursos, planejamento,
direção de vida. O corpo significando a força de trabalho, a alegria de viver e
o gosto de saber que eu estou fazendo porque gosto de estar com as pessoas na
fartura, na abundância. Alegria! Principalmente alegria de viver, e a
sexualidade está dentro disso.
Já a função sociológica, mais ligada à cor de Aparecida,
significa: precisamos aceitar de verdade a nossa morenice. Aparecida aponta
para o perigo da dissociação coletiva por conta da discriminação. Nós temos
sim, dentro de nós, uma inaceitação da nossa morenice. Somos um povo marrom! De
várias tonalidades, do escuro ao ocre dourado. Então, essa já é uma questão
ligada com a nossa sociologia e, portanto, com a evolução de indígenas e de
descendentes afros na sociedade galgando postos, como Marina Silva, descendente
negra dentro de uma candidatura à Presidência.
E A FUNÇÃO ESPIRITUAL?
Para mim, ela significa um alcance metafísico no seguinte
sentido: a relação do feminino é a relação da escuta do mistério, da escuta
mais atenta de poderes transcendentes que atuam nesse planeta, atuam no Sistema
Solar e em outras esferas maiores que nós, seres humanos; comunicam com ondas
magnéticas, e outras ondas que ainda não descobrimos, informações
importantíssimas para que saibamos quem somos, de onde viemos e para onde
vamos.
O feminino é capaz de abrir, acolher esse tipo de informação
ainda não decifrado. Ele se traduz por essa qualidade da alma humana de poder,
sejamos homens ou mulheres, receber uma informação que não decodificamos
imediatamente no racional, mas sentimos que ela nos transforma.
“A gente deve parar de estudar deusas gregas, romanas e não
sei mais das quantas e passar a estudar os nossos mitos, que são extremamente
valiosos”
E O MITO ATUA NA PSIQUE COLETIVA INDEPENDENTEmen te DA
COMPREENSÃO QUE SE TEM DELE?
Ele atua tão forte na psique inconsciente da maior parte das
pessoas que o mito Aparecida permanece vivo até hoje. Agora, cutucando meus
colegas psicólogos, nós estamos no Brasil tentando formar a nossa cabeça,
estudando mitos que foram vivos para povos do outro lado do mundo. Formidável!
Fantástico! Já fiz esse caminho. Mas é preciso outro esquema para entender quem
somos nós aqui, onde estamos. A gente deve parar de estudar deusas gregas,
romanas e não sei mais das quantas e passar a estudar os nossos mitos, que são
extremamente valiosos.
Prestaríamos um serviço de utilidade pública. Porque isso
representa uma terapia socializada, vamos dizer assim. Temos de nos apoiar nos
mitos da nossa gente. Eu cito o Macunaíma, mas há muitos outros que representam
essa criação das questões da nossa psique, como os sonhos coletivos de grupos.
E o que são sonhos coletivos? Estão representando o quê? Os nossos anseios
frustrados, a nossa sombra, que são nossas dificuldades, como encostar o corpo,
ser meio malandrinho, preguiçoso e assim por diante. É preciso que a gente se
valorize. Nós criamos esses mitos.
O feminino no mundo, como abordagem do real, é essa
abordagem que torna o visível e o invisível comunicantes. Primeiro, aceita o
invisível como real também. Por que real? Porque me atinge, me modifica, me
comove e me estimula. A função espiritual do mito Aparecida é a aceitação de um
feminino sagrado que, neste país, fala em todos os recantos, simbolizando a
integração necessária para a evolução da consciência coletiva do Brasil, no
sentido de maior igualdade, solidariedade e criatividade.
E O MITO ATUA NA PSIQUE COLETIVA INDEPENDENTEmente DA
COMPREENSÃO QUE SE TEM DELE?
Ele atua tão forte na psique inconsciente da maior parte das
pessoas que o mito Aparecida permanece vivo até hoje. Agora, cutucando meus
colegas psicólogos, nós estamos no Brasil tentando formar a nossa cabeça,
estudando mitos que foram vivos para povos do outro lado do mundo. Formidável!
Fantástico! Já fiz esse caminho. Mas é preciso outro esquema para entender quem
somos nós aqui, onde estamos. A gente deve parar de estudar deusas gregas,
romanas e não sei mais das quantas e passar a estudar os nossos mitos, que são
extremamente valiosos.
Prestaríamos um serviço de utilidade pública. Porque isso
representa uma terapia socializada, vamos dizer assim. Temos de nos apoiar nos
mitos da nossa gente. Eu cito o Macunaíma, mas há muitos outros que representam
essa criação das questões da nossa psique, como os sonhos coletivos de grupos.
E o que são sonhos coletivos? Estão representando o quê? Os nossos anseios
frustrados, a nossa sombra, que são nossas dificuldades, como encostar o corpo,
ser meio malandrinho, preguiçoso e assim por diante. É preciso que a gente se
valorize. Nós criamos esses mitos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário